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Quais nutrientes mais faltam na alimentação das mulheres brasileiras?

O que a POF/IBGE e a PNS mostram sobre cálcio, vitamina D, vitamina A, ferro e ácido fólico nas brasileiras, em quais alimentos do dia a dia eles aparecem e quando procurar a UBS ou a ginecologista.

Publicado em 2026-11-0111 min de leitura

Neste artigo

  • Na POF 2017-2018, mais de 95% das mulheres consumiam menos cálcio do que o necessário, e cerca de 8 em cada 10 adultas tinham ingestão insuficiente de vitamina A
  • Arroz com feijão, café com leite e pão francês estão no centro do prato brasileiro, e as farinhas de trigo e milho são fortificadas com ferro e ácido fólico por lei
  • Na UBS, gestantes recebem ácido fólico e sulfato ferroso de graça; menstruação intensa e cansaço constante pedem exame de sangue

Pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, do IBGE, o cálcio e a vitamina D são os nutrientes com maior déficit na alimentação das brasileiras. Entre as mulheres adultas, 96,1% consumiam menos cálcio do que o necessário, e praticamente todas ficavam abaixo da necessidade de vitamina D vinda dos alimentos [1]. A vitamina A (80,1% das adultas com ingestão insuficiente), a vitamina E e o magnésio também aparecem bem abaixo do recomendado [1]. Nos exames de sangue da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 12,3% das mulheres tinham anemia [3]. Para quem pretende engravidar, o Ministério da Saúde orienta começar o ácido fólico pelo menos 30 dias antes [4]. Se a sua menstruação é muito intensa ou você vive cansada, vale pedir um exame de sangue na unidade básica de saúde (UBS) ou à sua ginecologista antes de tomar qualquer suplemento por conta própria.


De onde vêm esses números?

A POF 2017-2018 é a principal pesquisa nacional sobre o que os brasileiros comem. Em uma parte dos domicílios, o IBGE registrou o consumo alimentar de pessoas com 10 anos ou mais por meio de recordatórios de 24 horas, ou seja, entrevistas sobre tudo o que foi comido e bebido no dia anterior. A análise reuniu dados de 46.164 pessoas, e 38.854 delas responderam a dois recordatórios [2].

Os percentuais deste artigo vêm de um estudo que usou esses dados para estimar quantas pessoas consumiam menos do que a necessidade média de cada nutriente (a EAR, sigla em inglês) [1]. A conta considera apenas alimentos e bebidas, sem suplementos. Ferro e folato não entraram nessa análise [1].

NutrienteAdolescentesAdultasIdosas (60 anos ou mais)
Cálcio99,0%96,1%98,5%
Vitamina D100%100%100%
Vitamina E93,9%97,0%98,0%
Vitamina A78,9%80,1%72,3%
Magnésio64,7%68,8%73,0%
Vitamina B675,8%91,8%96,7%

(Percentual de mulheres com ingestão abaixo da necessidade média, POF 2017-2018 [1])


O que vai no prato brasileiro

Para entender esses números, ajuda olhar o que a gente come de fato. No primeiro dia de registro da POF, os alimentos mais citados foram café (78,1% das pessoas), arroz (76,1%), feijão (60,0%) e pão de sal, o nosso pão francês (50,9%) [2]. As mulheres relataram consumir com mais frequência que os homens leite e derivados, café e chá, mas também biscoitos, bolos e doces [2].

O Guia Alimentar para a População Brasileira descreve o mesmo padrão: arroz e feijão correspondem a quase um quarto da alimentação, a mistura aparece em quase todos os almoços, e café com leite e frutas são presença constante no café da manhã [9]. É uma base boa, mas que deixa algumas lacunas, como você vai ver a seguir.


Ferro, menstruação e anemia

Nas mulheres que menstruam, a perda de sangue da menstruação é a causa mais comum de deficiência de ferro [5]. A gravidez também aumenta muito a necessidade desse mineral [5].

A PNS coletou exames de sangue de uma amostra da população adulta. Com o critério da OMS (hemoglobina abaixo de 12,0 g/dL nas mulheres), 12,3% das brasileiras tinham anemia, contra 7,2% dos homens [3]. Entre as mulheres, a prevalência foi de 11,4% de 18 a 29 anos, 13,3% de 30 a 44 anos e 9,4% de 45 a 59 anos [3]. Nem toda anemia vem da falta de ferro, mas ela é uma das causas principais.

Onde está o ferro na comida do dia a dia

O Ministério da Saúde separa duas formas de ferro. O ferro das carnes vermelhas, principalmente do fígado e dos miúdos, e também de frango, porco, peixes e mariscos é mais bem aproveitado pelo corpo [4]. Já o ferro das folhas verde-escuras, como a couve, e das leguminosas, como o feijão e a lentilha, é absorvido em menor quantidade [4]. Ou seja, o feijão de todo dia conta, mas sozinho não resolve.

O mesmo manual recomenda colocar na mesma refeição alimentos ricos em vitamina C, como laranja, acerola, limão e caju, e alimentos ricos em vitamina A, como mamão, manga, abóbora e cenoura, porque eles ajudam a aproveitar o ferro dos vegetais [4]. Um suco de laranja ou de acerola no almoço, ou a laranja de sobremesa depois do arroz com feijão, segue essa lógica. Para quem toma suplemento de ferro, a orientação é não tomá-lo junto com leite, chá ou café [12], o que vale lembrar no país do cafezinho depois do almoço.

Desde 2002, as farinhas de trigo e de milho vendidas no Brasil são fortificadas com ferro e ácido fólico por determinação da Anvisa [4]. Pela regra atual, cada 100 g de farinha deve ter de 4 a 9 mg de ferro e de 140 a 220 µg de ácido fólico, o que inclui o fubá e a farinha usada como ingrediente em pães, massas e biscoitos fabricados aqui [10]. A farinha de trigo integral e o flocão de milho ficam de fora [10].

Quando procurar o médico?

A anemia por falta de ferro costuma se instalar aos poucos, com cansaço, fraqueza e palidez; em casos mais intensos pode aparecer vontade de comer coisas que não são alimento, como gelo ou terra [5]. Se a menstruação está muito volumosa, dura mais do que o habitual ou vem acompanhada desses sinais, procure uma ginecologista ou a UBS mais perto de você.

O exame de sangue mostra se há anemia, e a dosagem de ferritina é considerada a forma mais precisa de avaliar as reservas de ferro [5]. Como o sangramento é a causa mais comum, o primeiro passo é descobrir de onde ele vem [5]. Não tome ferro em doses altas sem orientação.


Ácido fólico para quem pretende engravidar

O manual do Programa Nacional de Suplementação de Ferro, do Ministério da Saúde, orienta que gestantes tomem 400 µg de ácido fólico por dia, começando pelo menos 30 dias antes da data em que se planeja engravidar, para prevenir defeitos do tubo neural [4]. O tubo neural, que dá origem ao cérebro e à medula do bebê, se forma nas primeiras semanas, muitas vezes antes de a mulher saber que está grávida.

O mesmo manual prevê 40 mg de ferro elementar por dia durante toda a gestação e até o terceiro mês após o parto ou o aborto [4]. Pelo programa, o sulfato ferroso e o ácido fólico devem estar disponíveis de graça nas farmácias das UBS de todos os municípios, para gestantes desde o início do pré-natal [4]. Se você está pensando em engravidar, marque uma consulta na UBS ou com a sua ginecologista para conversar sobre isso antes.

O pão francês e o macarrão feitos com farinha fortificada ajudam a elevar o folato da população, mas não substituem o comprimido de ácido fólico na fase de planejamento e no início da gravidez.


Cálcio e vitamina D

O cálcio é, junto com a vitamina D, o nutriente em que a distância entre o que se come e o que se precisa é maior. Na POF 2017-2018, 99,0% das adolescentes, 96,1% das adultas e 98,5% das idosas ficaram abaixo da necessidade média [1]. Depois da menopausa a queda do estrogênio reduz a absorção de cálcio e aumenta a perda pela urina [6].

Leite, iogurte e queijo são as fontes mais ricas de cálcio; sardinha em conserva comida com as espinhas e couve também contribuem [6]. No dia a dia brasileiro, isso quer dizer o leite do café com leite, o queijo minas do café da manhã ou o iogurte do lanche. Do espinafre o corpo absorve bem menos cálcio do que do leite [6], então ele não compensa a falta de laticínios.

Para a vitamina D, nenhuma faixa etária de mulheres alcançou a necessidade média só com a alimentação [1]. Isso não quer dizer que todas tenham deficiência, porque a pele produz vitamina D com a luz do sol. Num estudo nacional com brasileiros de 50 anos ou mais (ELSI-Brasil, 2015-2016), 16% tinham vitamina D abaixo de 50 nmol/L, e os níveis médios foram mais baixos na região Sul e mais altos na região Norte [13]. As mulheres tiveram uma prevalência de níveis baixos maior que a dos homens [13]. Morar no Sul, passar o dia em ambiente fechado ou usar sempre roupas que cobrem a pele são situações para conversar com o médico. Apenas o exame de sangue mostra o nível real.


Vitamina A, vitamina E e magnésio

Os dados brasileiros chamam atenção para nutrientes que nem sempre aparecem nas listas de outros países. Cerca de 8 em cada 10 mulheres adultas consumiam menos vitamina A do que a necessidade média, e a ingestão insuficiente de vitamina E passava de 90% em todas as idades [1]. O magnésio ficou abaixo do necessário para 68,8% das adultas e 73,0% das idosas [1].

Mamão, manga, abóbora e cenoura, que o Ministério da Saúde cita como alimentos ricos em vitamina A [4], são frutas e legumes comuns na feira e no prato brasileiro. Os autores do estudo compararam os resultados com a POF 2008-2009 e analisaram como a ingestão de energia e nutrientes mudou nesse intervalo [1]. Os números indicam que o problema não está restrito a um grupo específico: aparece em adolescentes, adultas e idosas.


Iodo e sal

O sal destinado ao consumo humano no Brasil é obrigatoriamente iodado: a Anvisa exige de 15 a 45 mg de iodo por quilo de sal [11]. Por isso o iodo não costuma aparecer entre as preocupações das brasileiras como aparece em países europeus onde o sal iodado é opcional. Isso não é motivo para salgar mais a comida; o sal de cozinha comum já cumpre esse papel.


Como o Brasil se compara com outros países?

Cada país faz suas pesquisas em anos diferentes, com faixas etárias, métodos e valores de referência próprios, então os percentuais de ingestão não podem ser comparados diretamente. Uma medida comum ajuda. A OMS publica estimativas de anemia em mulheres de 15 a 49 anos para quase todos os países, usando os mesmos limites de hemoglobina (abaixo de 120 g/L fora da gravidez e abaixo de 110 g/L na gravidez) [7].

PaísAnemia em mulheres de 15 a 49 anos, 2023 (estimativa da OMS) [7,8]
Polônia23,4%
Brasil21,3%
Japão18,7%
Itália16,4%
Espanha15,6%
Estados Unidos15,0%
Alemanha14,0%
França13,1%
Mundo30,7%

Nesse grupo, o Brasil aparece entre os valores mais altos, atrás apenas da Polônia, mas bem abaixo da média mundial. A base da OMS não inclui Taiwan, por isso não é possível colocá-lo na mesma escala.

Vale notar a diferença entre a estimativa da OMS para o Brasil (21,3%) e o resultado medido na PNS (12,3% das mulheres adultas) [3,7]. As duas usam anos, faixas etárias e métodos diferentes: a OMS combina dados de várias fontes em um modelo estatístico, enquanto a PNS analisou amostras de sangue coletadas em 2013-2014 [3,7]. Pesquisas nacionais não são estritamente comparáveis entre si, e diferenças pequenas entre países na tabela não devem ser levadas ao pé da letra. Uma comparação mais detalhada, com Portugal, Argentina, México e outros vizinhos, está em Brasil e outros países: quais nutrientes faltam às mulheres?.


Perguntas frequentes

Q1. Se minha menstruação é muito intensa, devo tomar ferro?

O ideal é fazer um exame de sangue antes. A menstruação é a causa mais comum de falta de ferro nas mulheres, mas o médico precisa confirmar a anemia, avaliar a ferritina e investigar a origem do sangramento para decidir se há necessidade de tratamento e em que dose [5]. Você pode começar pela UBS ou pela sua ginecologista.

Q2. Quando começar o ácido fólico se eu quero engravidar?

O Ministério da Saúde orienta começar pelo menos 30 dias antes da data em que se planeja engravidar, na dose de 400 µg por dia [4]. Converse com o médico ou a enfermeira da sua unidade de saúde numa consulta pré-concepcional.

Q3. O feijão com arroz já não dá conta do ferro?

Ajuda, mas o ferro do feijão é absorvido em menor quantidade do que o das carnes [4]. Uma fruta rica em vitamina C na mesma refeição, como laranja ou acerola, é a combinação que o Ministério da Saúde sugere [4]. Se há sinais de anemia, o caminho é o exame de sangue, e não só mudar o cardápio.

Q4. Se como pouca vitamina D, tenho deficiência?

Não necessariamente. Na POF, nenhuma faixa etária de mulheres atingia a necessidade de vitamina D só com a alimentação [1], mas a pele também produz essa vitamina com o sol. Só o exame de sangue mostra o nível real.

Q5. Por que a anemia da OMS é diferente da medida no Brasil?

Porque a OMS usa um modelo estatístico para gerar estimativas comparáveis entre países, enquanto a PNS mediu a hemoglobina diretamente em uma amostra, em outro período e com outra faixa etária [3,7].


Referências

Fontes (13)
  1. Verly-Jr E, Marchioni DM, Araujo MC, De Carli E, Oliveira DCRS, Yokoo EM, Sichieri R, Pereira RA. Evolução da ingestão de energia e nutrientes no Brasil entre 2008–2009 e 2017–2018. Rev Saude Publica 2021;55 Supl 1:5s. https://scielosp.org/pdf/rsp/2021.v55suppl1/5s/pt
  2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2020. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101742.pdf
  3. Machado ÍE, Malta DC, Bacal NS, Rosenfeld LGM. Prevalência de anemia em adultos e idosos brasileiros. Rev Bras Epidemiol 2019;22(Supl 2):E190008.SUPL.2. https://scielo.br/j/rbepid/a/q47JnZ8YGgcqbN8gNDyQNJL/?lang=en
  4. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/08/manual_suplementacao_ferro_condutas_gerais.pdf
  5. Manual MSD Versão Saúde para a Família. Anemia ferropriva. https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/distúrbios-do-sangue/anemia/anemia-por-deficiência-de-ferro
  6. NIH Office of Dietary Supplements. Calcium: Fact Sheet for Health Professionals. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Calcium-HealthProfessional/
  7. Organização Mundial da Saúde, Global Health Observatory. Anaemia in women of reproductive age (aged 15-49), prevalence (%), by pregnancy status. https://www.who.int/data/gho/data/indicators/indicator-details/GHO/prevalence-of-anaemia-in-women-of-reproductive-age-(-)
  8. Our World in Data. Share of women of reproductive age who have anemia (dados: OMS, Global Health Observatory, via Banco Mundial, indicador SH.ANM.ALLW.ZS). https://ourworldindata.org/grapher/prevalence-of-anemia-in-women-of-reproductive-age-aged-15-29
  9. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. https://faolex.fao.org/docs/pdf/bra214639.pdf
  10. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico: perguntas e respostas. Brasília: Anvisa; 2021. https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/bitstream/anvisa/206/1/Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico_perguntas e respostas_2021.pdf
  11. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022 (enriquecimento obrigatório do sal com iodo e das farinhas de trigo e milho com ferro e ácido fólico). https://antigo.anvisa.gov.br/documents/10181/6394607/RDC_604_2022_COMP.pdf/4af228e9-d771-4e53-95f6-a003a86ac020
  12. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente (IFF/Fiocruz). Aspectos nutricionais da anemia ferropriva na gestação. 2024. https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2024/03/ANEMIA_FERROPRIVA_GESTACAO.pdf
  13. Lima-Costa MF, Mambrini JVM, Souza-Junior PRB, Andrade FB, Peixoto SV, Vidigal CM, de Oliveira C, Vidigal PG. Nationwide vitamin D status in older Brazilian adults and its determinants: the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI). Sci Rep 2020;10:13521. https://discovery-pp.ucl.ac.uk/10109193/1/s41598-020-70329-y.pdf

Este artigo traz informações gerais de saúde e não substitui diagnóstico nem tratamento. Se você tiver sintomas que preocupam, procure um profissional de saúde.

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