Brasil e outros países: quais nutrientes faltam às mulheres?
Como a anemia e a falta de ferro, cálcio, vitamina D e iodo nas brasileiras se comparam com Portugal, Argentina, México, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Japão, Espanha e Alemanha, e o que a comida e os hábitos de cada lugar ajudam a explicar.
Neste artigo
- Pela estimativa da OMS para 2023, 21,3% das brasileiras de 15 a 49 anos tinham anemia, menos que na Argentina (23,5%) e na Colômbia (22,4%), mais que em Portugal, nos Estados Unidos ou no México
- O Brasil tem farinha fortificada com ferro e ácido fólico e sal iodado por lei, o que o diferencia de países como a Alemanha, onde o sal iodado é opcional
- Cálcio e vitamina D aparecem como lacunas em vários países, mas pesquisas nacionais usam métodos diferentes e não podem ser comparadas número a número
Pela estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2023, 21,3% das brasileiras de 15 a 49 anos tinham anemia. É menos do que na Argentina (23,5%) e na Colômbia (22,4%), mas mais do que em Portugal e nos Estados Unidos (15,0%), na Alemanha (14,0%) ou no México (13,2%), e bem abaixo da média mundial de 30,7% [1,2]. Quando se olha para a alimentação, cada país tem a sua lacuna mais marcante: no Brasil, cálcio, vitamina D e vitamina A [3]; no Japão, ferro e cálcio [6,7]; na Alemanha, vitamina D e iodo [10,11]. As pesquisas usam métodos e anos diferentes, então servem para ver tendências, não para montar um ranking. Se você se reconhece em algum desses quadros, como menstruação intensa ou cansaço que não passa, o lugar certo para começar é a UBS ou a sua ginecologista.
Por que os números não se comparam diretamente
Cada país mede a alimentação do seu jeito. Uns perguntam o que a pessoa comeu no dia anterior, outros analisam sangue. Uns usam a necessidade média (EAR) como referência, outros a recomendação diária, que é mais alta. As faixas de idade e os anos também mudam: a PNS brasileira coletou sangue em 2013-2014 [4], a pesquisa alemã DEGS1 entre 2008 e 2011 [10], a japonesa é de 2024 [6].
Por isso, este artigo usa um único indicador comum, a estimativa de anemia da OMS para mulheres de 15 a 49 anos, que aplica os mesmos limites de hemoglobina em todos os países: abaixo de 120 g/L fora da gravidez e abaixo de 110 g/L na gravidez [1]. Os dados das pesquisas nacionais aparecem depois, como contexto.
Anemia nas mulheres: o Brasil e seus vizinhos
| País | Anemia em mulheres de 15 a 49 anos, 2023 (estimativa da OMS) |
|---|---|
| Argentina | 23,5% |
| Colômbia | 22,4% |
| Brasil | 21,3% |
| Japão | 18,7% |
| Chile | 15,7% |
| Espanha | 15,6% |
| Portugal | 15,0% |
| Estados Unidos | 15,0% |
| Alemanha | 14,0% |
| México | 13,2% |
| Mundo | 30,7% |
(Dados: OMS, Global Health Observatory, via Banco Mundial, indicador SH.ANM.ALLW.ZS [1,2])
Na América do Sul, o Brasil fica no meio do caminho: abaixo de Argentina e Colômbia, acima do Chile. Portugal, que tem tanta coisa em comum com a nossa cozinha, aparece com 15,0% [2].
Essas estimativas são resultado de um modelo estatístico e podem destoar das medições feitas em cada país. A PNS, que mediu a hemoglobina diretamente, encontrou anemia em 12,3% das brasileiras adultas [4]. No México, a pesquisa nacional Ensanut 2022 encontrou 16,0% de anemia em mulheres não grávidas de 20 a 49 anos [9], acima da estimativa da OMS para o país. Diferenças de um ou dois pontos na tabela não querem dizer muita coisa.
O que as pesquisas de cada país mostram
| País | Nutrientes que mais chamam atenção | O que foi encontrado |
|---|---|---|
| Brasil | Cálcio, vitamina D, vitamina A | 96,1% das adultas abaixo da necessidade média de cálcio e 80,1% de vitamina A (POF 2017-2018) [3] |
| México | Ferro | 16,0% de anemia em mulheres não grávidas de 20 a 49 anos (Ensanut 2022) [9] |
| Estados Unidos | Ferro, cálcio | 17% das jovens de 12 a 21 anos com deficiência de ferro (ferritina abaixo de 15 µg/L) [8]; ingestão média de cálcio das mulheres de 842 mg/dia [12] |
| Japão | Ferro, cálcio | Mulheres de 20 a 39 anos comem em média 6,3 mg de ferro por dia, com recomendação de 10,0 a 10,5 mg [6,7] |
| Espanha | Ferro | Só 17,0% a 27,3% das mulheres atingiam a referência de ferro, conforme o critério (estudo ANIBES) [13] |
| Alemanha | Vitamina D, iodo | Cerca de 56% das mulheres de 18 a 44 anos com vitamina D abaixo de 50 nmol/L [10]; 52% das mulheres com iodo abaixo da necessidade média [22] |
| Portugal, Argentina, Chile, Colômbia | Não analisados aqui | Só a estimativa da OMS foi usada para esses países |
(Pesquisas com anos, idades e métodos diferentes; veja as referências)
O que muda no prato e nos hábitos
Arroz com feijão e farinha fortificada
O prato brasileiro tem uma base que muitos países não têm. Arroz e feijão correspondem a quase um quarto da alimentação, e a mistura aparece em quase todos os almoços [5]. O feijão traz ferro, mas na forma vegetal, que o corpo absorve menos do que o ferro das carnes [14]. Além disso, desde 2002 as farinhas de trigo e milho são fortificadas por lei com ferro e ácido fólico [14], o que inclui o pão francês, o macarrão e o fubá feitos aqui [15].
Os Estados Unidos fortificam produtos de grãos com ácido fólico desde 1998, e o Chile também tem programa obrigatório [16]. Nos Estados Unidos, os defeitos do tubo neural caíram 28% desde então [16]. Na Espanha, os cereais respondem por cerca de um quarto do ferro da dieta e as carnes por um quinto [13].
Café, cálcio e laticínios
O café é o alimento mais citado na POF: 78,1% das pessoas tomaram no dia registrado [17]. Para quem toma suplemento de ferro, a orientação é não tomá-lo junto com leite, chá ou café [18]. O cafezinho logo depois do almoço é um hábito bem nosso que vale ter em mente para quem tem anemia.
O cálcio é um problema em vários países, mas com perfis diferentes. No Brasil, a falta é quase geral: 96,1% das adultas ficam abaixo da necessidade média [3], mesmo com o café com leite e o queijo minas no café da manhã. No Japão, as mulheres de 20 a 29 anos comem em média 389 mg de cálcio por dia [6]. Nos Estados Unidos, a média das mulheres é de 842 mg por dia, abaixo dos 1.000 mg recomendados para 19 a 50 anos [12].
Sol e vitamina D
Um país tropical não garante vitamina D para todo mundo. No Brasil, a comida quase não fornece vitamina D [3], e o que conta é o sol. Num estudo nacional com brasileiros de 50 anos ou mais, os níveis médios foram mais baixos no Sul e mais altos no Norte [19]. Na Alemanha, onde de outubro a março o sol é fraco demais para a pele produzir vitamina D [20], cerca de 56% das mulheres jovens ficavam abaixo de 50 nmol/L [10]. Para as brasileiras, o risco é maior para quem mora no Sul, trabalha o dia inteiro em ambiente fechado ou cobre quase toda a pele.
Sal iodado
Aqui o Brasil leva vantagem. O sal para consumo humano é iodado por lei, com 15 a 45 mg de iodo por quilo [21]. Na Alemanha, o uso de sal iodado pela indústria é baixo: uma pesquisa de mercado encontrou iodo em só 9% do sal usado em alimentos processados [11], e as alemãs tinham a ingestão média de iodo mais baixa entre os países europeus estudados, 105 µg por dia [22]. A OMS alertou em 2024 que a troca de leite por bebidas vegetais, que em geral não têm iodo, aumenta o risco de falta desse mineral na Europa [11].
O que fazer com essa informação
As comparações mostram que nenhum país está livre de lacunas e que as políticas públicas mudam o quadro: farinha fortificada e sal iodado tiram parte do peso das costas de cada pessoa. Mas o número do seu país não diz como está o seu corpo. Quem tem menstruação muito intensa, cansaço frequente, está pensando em engravidar ou já passou da menopausa pode pedir exames na UBS ou à ginecologista. Para gestantes, o SUS distribui ácido fólico e sulfato ferroso de graça nas farmácias das UBS [14]. Os detalhes sobre as brasileiras estão em Nutrientes que mais faltam às mulheres no Brasil.
Perguntas frequentes
Q1. Por que a anemia no Brasil é maior que nos Estados Unidos ou em Portugal?
A estimativa da OMS mostra a diferença, mas não explica as causas, e a anemia nem sempre vem da falta de ferro. No Brasil, a maior parte do ferro do prato vem de fontes vegetais como o feijão, que o corpo absorve menos [14]. Os números de cada país também carregam incertezas do modelo estatístico [1].
Q2. A farinha fortificada substitui o ácido fólico para quem quer engravidar?
Não. Mesmo em países com fortificação obrigatória, como Brasil e Estados Unidos, a orientação é tomar 400 µg de ácido fólico por dia na fase de planejamento [14,16]. O Ministério da Saúde recomenda começar pelo menos 30 dias antes da data em que se planeja engravidar [14].
Q3. Se moro num país tropical, preciso me preocupar com vitamina D?
Pode ser que sim. A alimentação brasileira quase não traz vitamina D [3], e estudos mostram níveis mais baixos no Sul do país [19]. Só o exame de sangue mostra o seu nível.
Q4. Brasileiras que moram na Europa devem prestar atenção em quê?
Em países como a Alemanha, o sal iodado é opcional e pouco usado pela indústria [11], e o sol de inverno não basta para produzir vitamina D [20]. Vale perguntar ao médico de lá sobre iodo e vitamina D, principalmente na gravidez.
Referências
Fontes (22)
- Organização Mundial da Saúde, Global Health Observatory. Anaemia in women of reproductive age (aged 15-49), prevalence (%), by pregnancy status. https://www.who.int/data/gho/data/indicators/indicator-details/GHO/prevalence-of-anaemia-in-women-of-reproductive-age-(-)
- Our World in Data. Share of women of reproductive age who have anemia, 2023 (dados: OMS, Global Health Observatory, via Banco Mundial, indicador SH.ANM.ALLW.ZS). https://ourworldindata.org/grapher/prevalence-of-anemia-in-women-of-reproductive-age-aged-15-29
- Verly-Jr E, Marchioni DM, Araujo MC, De Carli E, Oliveira DCRS, Yokoo EM, Sichieri R, Pereira RA. Evolução da ingestão de energia e nutrientes no Brasil entre 2008–2009 e 2017–2018. Rev Saude Publica 2021;55 Supl 1:5s. https://scielosp.org/pdf/rsp/2021.v55suppl1/5s/pt
- Machado ÍE, Malta DC, Bacal NS, Rosenfeld LGM. Prevalência de anemia em adultos e idosos brasileiros. Rev Bras Epidemiol 2019;22(Supl 2):E190008.SUPL.2. https://scielo.br/j/rbepid/a/q47JnZ8YGgcqbN8gNDyQNJL/?lang=en
- Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. https://faolex.fao.org/docs/pdf/bra214639.pdf
- Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão (MHLW). Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição 2024 (令和6年国民健康・栄養調査報告), resultados de ingestão de nutrientes. https://www.mhlw.go.jp/content/001675212.pdf
- Fundação de Ciência da Longevidade do Japão (健康長寿ネット). Recomendações de ingestão de ferro, segundo as Dietary Reference Intakes for Japanese 2025. https://www.tyojyu.or.jp/net/kenkou-tyoju/eiyouso/mineral-tetsu.html
- Weyand AC, Chaitoff A, Freed GL, et al. Prevalence of Iron Deficiency and Iron-Deficiency Anemia in US Females Aged 12-21 Years, 2003-2020. JAMA 2023;329(24):2191-2193. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2806540
- Mejía-Rodríguez F, Mundo-Rosas V, García-Guerra A, Mauricio-López ER, Shamah-Levy T, Villalpando S, De la Cruz-Góngora V. Prevalencia de anemia en la población mexicana: análisis de la Ensanut Continua 2022. Salud Publica Mex 2023;65(supl 1):S225-S230. https://ensanut.insp.mx/encuestas/ensanutcontinua2022/doctos/analiticos/29-Anemia-ENSANUT2022-14771-72496-2-10-20230619.pdf
- Rabenberg M, Scheidt-Nave C, Busch MA, Rieckmann N, Hintzpeter B, Mensink GBM. Vitamin D status among adults in Germany – results from the German Health Interview and Examination Survey for Adults (DEGS1). BMC Public Health 2015;15:641. https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/s12889-015-2016-7
- Organização Mundial da Saúde, Escritório Regional para a Europa. People in the WHO European Region at greater risk of iodine deficiency due to changing diets. 28 jun 2024. https://www.who.int/europe/news/item/28-06-2024-people-in-the-who-european-region-at-greater-risk-of-iodine-deficiency-due-to-changing-diets
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- Ministério da Saúde. Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/08/manual_suplementacao_ferro_condutas_gerais.pdf
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico: perguntas e respostas. Brasília: Anvisa; 2021. https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/bitstream/anvisa/206/1/Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico_perguntas e respostas_2021.pdf
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- Mensink GBM, Fletcher R, Gurinovic M, et al. Mapping low intake of micronutrients across Europe. Br J Nutr 2013;110(4):755-773. https://www.cambridge.org/core/journals/british-journal-of-nutrition/article/mapping-low-intake-of-micronutrients-across-europe/3030D01830361125149A3BD9514F5A61
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