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Brasil e outros países: quais nutrientes faltam às mulheres?

Como a anemia e a falta de ferro, cálcio, vitamina D e iodo nas brasileiras se comparam com Portugal, Argentina, México, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Japão, Espanha e Alemanha, e o que a comida e os hábitos de cada lugar ajudam a explicar.

Publicado em 2026-11-019 min de leitura

Neste artigo

  • Pela estimativa da OMS para 2023, 21,3% das brasileiras de 15 a 49 anos tinham anemia, menos que na Argentina (23,5%) e na Colômbia (22,4%), mais que em Portugal, nos Estados Unidos ou no México
  • O Brasil tem farinha fortificada com ferro e ácido fólico e sal iodado por lei, o que o diferencia de países como a Alemanha, onde o sal iodado é opcional
  • Cálcio e vitamina D aparecem como lacunas em vários países, mas pesquisas nacionais usam métodos diferentes e não podem ser comparadas número a número

Pela estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2023, 21,3% das brasileiras de 15 a 49 anos tinham anemia. É menos do que na Argentina (23,5%) e na Colômbia (22,4%), mas mais do que em Portugal e nos Estados Unidos (15,0%), na Alemanha (14,0%) ou no México (13,2%), e bem abaixo da média mundial de 30,7% [1,2]. Quando se olha para a alimentação, cada país tem a sua lacuna mais marcante: no Brasil, cálcio, vitamina D e vitamina A [3]; no Japão, ferro e cálcio [6,7]; na Alemanha, vitamina D e iodo [10,11]. As pesquisas usam métodos e anos diferentes, então servem para ver tendências, não para montar um ranking. Se você se reconhece em algum desses quadros, como menstruação intensa ou cansaço que não passa, o lugar certo para começar é a UBS ou a sua ginecologista.


Por que os números não se comparam diretamente

Cada país mede a alimentação do seu jeito. Uns perguntam o que a pessoa comeu no dia anterior, outros analisam sangue. Uns usam a necessidade média (EAR) como referência, outros a recomendação diária, que é mais alta. As faixas de idade e os anos também mudam: a PNS brasileira coletou sangue em 2013-2014 [4], a pesquisa alemã DEGS1 entre 2008 e 2011 [10], a japonesa é de 2024 [6].

Por isso, este artigo usa um único indicador comum, a estimativa de anemia da OMS para mulheres de 15 a 49 anos, que aplica os mesmos limites de hemoglobina em todos os países: abaixo de 120 g/L fora da gravidez e abaixo de 110 g/L na gravidez [1]. Os dados das pesquisas nacionais aparecem depois, como contexto.


Anemia nas mulheres: o Brasil e seus vizinhos

PaísAnemia em mulheres de 15 a 49 anos, 2023 (estimativa da OMS)
Argentina23,5%
Colômbia22,4%
Brasil21,3%
Japão18,7%
Chile15,7%
Espanha15,6%
Portugal15,0%
Estados Unidos15,0%
Alemanha14,0%
México13,2%
Mundo30,7%

(Dados: OMS, Global Health Observatory, via Banco Mundial, indicador SH.ANM.ALLW.ZS [1,2])

Na América do Sul, o Brasil fica no meio do caminho: abaixo de Argentina e Colômbia, acima do Chile. Portugal, que tem tanta coisa em comum com a nossa cozinha, aparece com 15,0% [2].

Essas estimativas são resultado de um modelo estatístico e podem destoar das medições feitas em cada país. A PNS, que mediu a hemoglobina diretamente, encontrou anemia em 12,3% das brasileiras adultas [4]. No México, a pesquisa nacional Ensanut 2022 encontrou 16,0% de anemia em mulheres não grávidas de 20 a 49 anos [9], acima da estimativa da OMS para o país. Diferenças de um ou dois pontos na tabela não querem dizer muita coisa.


O que as pesquisas de cada país mostram

PaísNutrientes que mais chamam atençãoO que foi encontrado
BrasilCálcio, vitamina D, vitamina A96,1% das adultas abaixo da necessidade média de cálcio e 80,1% de vitamina A (POF 2017-2018) [3]
MéxicoFerro16,0% de anemia em mulheres não grávidas de 20 a 49 anos (Ensanut 2022) [9]
Estados UnidosFerro, cálcio17% das jovens de 12 a 21 anos com deficiência de ferro (ferritina abaixo de 15 µg/L) [8]; ingestão média de cálcio das mulheres de 842 mg/dia [12]
JapãoFerro, cálcioMulheres de 20 a 39 anos comem em média 6,3 mg de ferro por dia, com recomendação de 10,0 a 10,5 mg [6,7]
EspanhaFerroSó 17,0% a 27,3% das mulheres atingiam a referência de ferro, conforme o critério (estudo ANIBES) [13]
AlemanhaVitamina D, iodoCerca de 56% das mulheres de 18 a 44 anos com vitamina D abaixo de 50 nmol/L [10]; 52% das mulheres com iodo abaixo da necessidade média [22]
Portugal, Argentina, Chile, ColômbiaNão analisados aquiSó a estimativa da OMS foi usada para esses países

(Pesquisas com anos, idades e métodos diferentes; veja as referências)


O que muda no prato e nos hábitos

Arroz com feijão e farinha fortificada

O prato brasileiro tem uma base que muitos países não têm. Arroz e feijão correspondem a quase um quarto da alimentação, e a mistura aparece em quase todos os almoços [5]. O feijão traz ferro, mas na forma vegetal, que o corpo absorve menos do que o ferro das carnes [14]. Além disso, desde 2002 as farinhas de trigo e milho são fortificadas por lei com ferro e ácido fólico [14], o que inclui o pão francês, o macarrão e o fubá feitos aqui [15].

Os Estados Unidos fortificam produtos de grãos com ácido fólico desde 1998, e o Chile também tem programa obrigatório [16]. Nos Estados Unidos, os defeitos do tubo neural caíram 28% desde então [16]. Na Espanha, os cereais respondem por cerca de um quarto do ferro da dieta e as carnes por um quinto [13].

Café, cálcio e laticínios

O café é o alimento mais citado na POF: 78,1% das pessoas tomaram no dia registrado [17]. Para quem toma suplemento de ferro, a orientação é não tomá-lo junto com leite, chá ou café [18]. O cafezinho logo depois do almoço é um hábito bem nosso que vale ter em mente para quem tem anemia.

O cálcio é um problema em vários países, mas com perfis diferentes. No Brasil, a falta é quase geral: 96,1% das adultas ficam abaixo da necessidade média [3], mesmo com o café com leite e o queijo minas no café da manhã. No Japão, as mulheres de 20 a 29 anos comem em média 389 mg de cálcio por dia [6]. Nos Estados Unidos, a média das mulheres é de 842 mg por dia, abaixo dos 1.000 mg recomendados para 19 a 50 anos [12].

Sol e vitamina D

Um país tropical não garante vitamina D para todo mundo. No Brasil, a comida quase não fornece vitamina D [3], e o que conta é o sol. Num estudo nacional com brasileiros de 50 anos ou mais, os níveis médios foram mais baixos no Sul e mais altos no Norte [19]. Na Alemanha, onde de outubro a março o sol é fraco demais para a pele produzir vitamina D [20], cerca de 56% das mulheres jovens ficavam abaixo de 50 nmol/L [10]. Para as brasileiras, o risco é maior para quem mora no Sul, trabalha o dia inteiro em ambiente fechado ou cobre quase toda a pele.

Sal iodado

Aqui o Brasil leva vantagem. O sal para consumo humano é iodado por lei, com 15 a 45 mg de iodo por quilo [21]. Na Alemanha, o uso de sal iodado pela indústria é baixo: uma pesquisa de mercado encontrou iodo em só 9% do sal usado em alimentos processados [11], e as alemãs tinham a ingestão média de iodo mais baixa entre os países europeus estudados, 105 µg por dia [22]. A OMS alertou em 2024 que a troca de leite por bebidas vegetais, que em geral não têm iodo, aumenta o risco de falta desse mineral na Europa [11].


O que fazer com essa informação

As comparações mostram que nenhum país está livre de lacunas e que as políticas públicas mudam o quadro: farinha fortificada e sal iodado tiram parte do peso das costas de cada pessoa. Mas o número do seu país não diz como está o seu corpo. Quem tem menstruação muito intensa, cansaço frequente, está pensando em engravidar ou já passou da menopausa pode pedir exames na UBS ou à ginecologista. Para gestantes, o SUS distribui ácido fólico e sulfato ferroso de graça nas farmácias das UBS [14]. Os detalhes sobre as brasileiras estão em Nutrientes que mais faltam às mulheres no Brasil.


Perguntas frequentes

Q1. Por que a anemia no Brasil é maior que nos Estados Unidos ou em Portugal?

A estimativa da OMS mostra a diferença, mas não explica as causas, e a anemia nem sempre vem da falta de ferro. No Brasil, a maior parte do ferro do prato vem de fontes vegetais como o feijão, que o corpo absorve menos [14]. Os números de cada país também carregam incertezas do modelo estatístico [1].

Q2. A farinha fortificada substitui o ácido fólico para quem quer engravidar?

Não. Mesmo em países com fortificação obrigatória, como Brasil e Estados Unidos, a orientação é tomar 400 µg de ácido fólico por dia na fase de planejamento [14,16]. O Ministério da Saúde recomenda começar pelo menos 30 dias antes da data em que se planeja engravidar [14].

Q3. Se moro num país tropical, preciso me preocupar com vitamina D?

Pode ser que sim. A alimentação brasileira quase não traz vitamina D [3], e estudos mostram níveis mais baixos no Sul do país [19]. Só o exame de sangue mostra o seu nível.

Q4. Brasileiras que moram na Europa devem prestar atenção em quê?

Em países como a Alemanha, o sal iodado é opcional e pouco usado pela indústria [11], e o sol de inverno não basta para produzir vitamina D [20]. Vale perguntar ao médico de lá sobre iodo e vitamina D, principalmente na gravidez.


Referências

Fontes (22)
  1. Organização Mundial da Saúde, Global Health Observatory. Anaemia in women of reproductive age (aged 15-49), prevalence (%), by pregnancy status. https://www.who.int/data/gho/data/indicators/indicator-details/GHO/prevalence-of-anaemia-in-women-of-reproductive-age-(-)
  2. Our World in Data. Share of women of reproductive age who have anemia, 2023 (dados: OMS, Global Health Observatory, via Banco Mundial, indicador SH.ANM.ALLW.ZS). https://ourworldindata.org/grapher/prevalence-of-anemia-in-women-of-reproductive-age-aged-15-29
  3. Verly-Jr E, Marchioni DM, Araujo MC, De Carli E, Oliveira DCRS, Yokoo EM, Sichieri R, Pereira RA. Evolução da ingestão de energia e nutrientes no Brasil entre 2008–2009 e 2017–2018. Rev Saude Publica 2021;55 Supl 1:5s. https://scielosp.org/pdf/rsp/2021.v55suppl1/5s/pt
  4. Machado ÍE, Malta DC, Bacal NS, Rosenfeld LGM. Prevalência de anemia em adultos e idosos brasileiros. Rev Bras Epidemiol 2019;22(Supl 2):E190008.SUPL.2. https://scielo.br/j/rbepid/a/q47JnZ8YGgcqbN8gNDyQNJL/?lang=en
  5. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. https://faolex.fao.org/docs/pdf/bra214639.pdf
  6. Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão (MHLW). Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição 2024 (令和6年国民健康・栄養調査報告), resultados de ingestão de nutrientes. https://www.mhlw.go.jp/content/001675212.pdf
  7. Fundação de Ciência da Longevidade do Japão (健康長寿ネット). Recomendações de ingestão de ferro, segundo as Dietary Reference Intakes for Japanese 2025. https://www.tyojyu.or.jp/net/kenkou-tyoju/eiyouso/mineral-tetsu.html
  8. Weyand AC, Chaitoff A, Freed GL, et al. Prevalence of Iron Deficiency and Iron-Deficiency Anemia in US Females Aged 12-21 Years, 2003-2020. JAMA 2023;329(24):2191-2193. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2806540
  9. Mejía-Rodríguez F, Mundo-Rosas V, García-Guerra A, Mauricio-López ER, Shamah-Levy T, Villalpando S, De la Cruz-Góngora V. Prevalencia de anemia en la población mexicana: análisis de la Ensanut Continua 2022. Salud Publica Mex 2023;65(supl 1):S225-S230. https://ensanut.insp.mx/encuestas/ensanutcontinua2022/doctos/analiticos/29-Anemia-ENSANUT2022-14771-72496-2-10-20230619.pdf
  10. Rabenberg M, Scheidt-Nave C, Busch MA, Rieckmann N, Hintzpeter B, Mensink GBM. Vitamin D status among adults in Germany – results from the German Health Interview and Examination Survey for Adults (DEGS1). BMC Public Health 2015;15:641. https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/s12889-015-2016-7
  11. Organização Mundial da Saúde, Escritório Regional para a Europa. People in the WHO European Region at greater risk of iodine deficiency due to changing diets. 28 jun 2024. https://www.who.int/europe/news/item/28-06-2024-people-in-the-who-european-region-at-greater-risk-of-iodine-deficiency-due-to-changing-diets
  12. NIH Office of Dietary Supplements. Calcium: Fact Sheet for Health Professionals. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Calcium-HealthProfessional/
  13. Samaniego-Vaesken ML, Partearroyo T, Olza J, et al. Iron Intake and Dietary Sources in the Spanish Population: Findings from the ANIBES Study. Nutrients 2017;9(3):203. https://eprints.ucm.es/70191/1/nutrients-09-00203 (1).pdf
  14. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Suplementação de Ferro: manual de condutas gerais. Brasília: Ministério da Saúde; 2013. https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2019/08/manual_suplementacao_ferro_condutas_gerais.pdf
  15. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico: perguntas e respostas. Brasília: Anvisa; 2021. https://bibliotecadigital.anvisa.gov.br/jspui/bitstream/anvisa/206/1/Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico_perguntas e respostas_2021.pdf
  16. NIH Office of Dietary Supplements. Folate: Fact Sheet for Health Professionals. https://ods.od.nih.gov/factsheets/Folate-HealthProfessional/
  17. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2020. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101742.pdf
  18. Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente (IFF/Fiocruz). Aspectos nutricionais da anemia ferropriva na gestação. 2024. https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/wp-content/uploads/2024/03/ANEMIA_FERROPRIVA_GESTACAO.pdf
  19. Lima-Costa MF, Mambrini JVM, Souza-Junior PRB, et al. Nationwide vitamin D status in older Brazilian adults and its determinants: the Brazilian Longitudinal Study of Aging (ELSI). Sci Rep 2020;10:13521. https://discovery-pp.ucl.ac.uk/10109193/1/s41598-020-70329-y.pdf
  20. Deutsche Gesellschaft für Ernährung (DGE). FAQ Vitamin D. https://www.dge.de/gesunde-ernaehrung/faq/vitamin-d/
  21. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Resolução RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022. https://antigo.anvisa.gov.br/documents/10181/6394607/RDC_604_2022_COMP.pdf/4af228e9-d771-4e53-95f6-a003a86ac020
  22. Mensink GBM, Fletcher R, Gurinovic M, et al. Mapping low intake of micronutrients across Europe. Br J Nutr 2013;110(4):755-773. https://www.cambridge.org/core/journals/british-journal-of-nutrition/article/mapping-low-intake-of-micronutrients-across-europe/3030D01830361125149A3BD9514F5A61

Este artigo traz informações gerais de saúde e não substitui diagnóstico nem tratamento. Se você tiver sintomas que preocupam, procure um profissional de saúde.

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